quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

AMOR LIVRE NÃO É BAGUNÇA

Eu tenho visto muitas (muitas mesmo) críticas ferrenhas ao amor livre. Que amor livre mantém solidão, que amor livre é balela, que amor livre é coisa de macho escroto que quer pegar todo mundo, que amor livre é utópico, que amor livre é [insira aqui sua crítica negativa]. O ponto é: eu concordo com essas fita tudo. Concordo mesmo e acho perigoso pra autoestima das pessoas o que essas ideias podem causar.
O problema é que eu acho que isso aí não é amor livre não. Solidão, pegação, utopia, manipulação entre outras coisas podem ser problemas reais sim, mas eles não tem necessariamente a ver com amor muito menos com liberdade, o que me leva a crer que tem muita gente se dizendo adepta do amor livre e/ou criticando o amor livre sem saber ao certo do que tá falando.
E bom, eu não sou ninguém nessa área, eu não tô falando de evidências e tampouco de teorias científicas aqui (até porque até onde me recordo essa área ainda tá meio escassa), mas eu vou falar o que euzinha, Gabriela, diante de trocentos blogs, textos e relatos de vivência que li/ouvi, entendo (e vivo) por amor livre: uma forma de amar em que você faz isso livremente, entenda você o que quiser por liberdade (e informe a pessoa com quem você tá se envolvendo sobre isso, né). É uma forma de amar onde você não necessariamente precisa de exclusividade, mas também não necessariamente precisa de vários parceiros. É uma forma de amar onde você se permite afetar e ser afetado pelo que a outra pessoa tem a lhe oferecer, respeitando desejos, vontades, inseguranças e limitações da outra pessoa, mas, principalmente, de você mesmo. É você amar sem aceitar coisas prontas que te disseram a vida toda que era amor, se permitindo refletir pra ver o que fica e o que vai. E bom, tudo que eu disse aí em cima pode se resumir em: diálogo.
Sim, eu tô falando de conversar.
Bater papo.
Discutir a famigerada relação.
Discordar, concordar, fazer e desfazer acordos.
Sim, eu tô falando de se permitir olhar pra dentro e olhar pra fora, tendo nenhuma, uma ou várias pessoas pra compartilhar isso com você, porque na real a ideia da liberdade do amor livre é que ela te auxilie a decidir isso.
É fácil fazer isso? Obviamente que não.
É bem difícil na real, porque dá trabalho pra cacete ser transparente. Dá trabalho pra cacete trabalhar suas inseguranças pra que elas não dominem a sua expectativa sobre o outro. Dá trabalho pra cacete correr o risco sempre iminente de se ver só. E dá trabalho pra cacete entender que estar só não é solidão.
Mas não é porque dá trabalho que é impossível.
Porque trabalho mesmo eu acho que é criar histórias e máscaras pra que a pessoa que amamos não veja quem realmente somos. Trabalho mesmo é contornar de forma solitária sensações, desejos e expectativas por medo do outro nos deixar de lado. Trabalho mesmo é depositar no outro nossas expectativas sobre o quão bons ou legais somos, entrando em completo pânico se surge uma pessoa tão legal quanto nós – ou pior, mais legal e mais interessante que nós!
Diante disso eu acho que muito provavelmente por esses fatores é que muita gente ache as pessoas a favor do amor livre utópicas, sonhadoras, falaciosas. Porque quando eu falo de amor livre, eu falo de me colocar em primeiro lugar sempre. Eu falo de reclamar do que me incomoda. Eu falo de compartilhar os desejos que sinto por outras pessoas. Eu falo também de querer ouvir os seus desejos pelas outras pessoas, e de ouvir os seus incômodos, e de lidarmos com isso discutindo sentimentos, e não fugindo. Eu falo de dormir com você quando sentir vontade, e com você, e com você também, mas também de dormir com o meu cachorro ao invés de dormir com todos vocês porque quem escolhe isso sou eu. Eu falo de compartilhar ideias, sonhos, comida gordurosa e filosofias, mas de me permitir não compartilhar nada no dia que eu não estiver afim, porque adivinha quem escolhe isso? Eu.
Agora, olhemos ao redor. A gente tem uma sociedade que acredita piamente em “amor pra vida toda”. Em uma pessoinha única e exclusiva que vai suprir seus desejos e necessidades até a sua velhice, que promete se interessar, se apaixonar, amar, achar inteligente, delícia e gente boa você e apenas você PRA SEMPRE. Até o fim dos seus dias. Aí então quando você diz que não quer isso você merecerá amargar na solidão, e caso você não consiga isso, pena é o que sentirão de você por não ter conseguido upar nesse level da vida. E isso, minha gente, eu não sei vocês, mas eu chamo de monogamia tradicional.
Agora lê esse trechinho de novo... vocês ainda acham mesmo que o amor livre é que é utopia?
Prestem muita atenção no que eu vou falar agora: se você tem/acha que tem/quer ter um amor pra vida toda, naqueles moldes descritos ali em cima, tá tudo bem. Tá tudo bem mesmo, é sério. Afinal, a vida é sua, e contanto que você não espere isso de mim em relação a você, estamos suaves. Só que eu confesso que vou me preocupar contigo, porque eu sei o quanto isso é difícil, porque eu também já estive do outro lado do time. A normatividade da nossa sociedade nos faz estar desse lado pelo menos em algum momento da vida. Eu me preocupo porque eu sei que você tem chances bem grandes de encontrar alguém que compartilhe das mesmas ideias que você, mas também receio que as chances de que talvez vocês se esqueçam que pessoas mudam, e que nem sempre um indivíduo muda ou está disposto a mudar no ritmo do outro, são grandes – e é aí que a solidão, as inseguranças, as traições e toda aquela belezura que envolve a monogamia tradicional traz.
Diante disso, será que eu acho que se você se tornar adepto do amor livre você vai ser mais feliz e nunca mais sofrer nada disso?
Sinto lhe informar, mas... não.
O amor livre vai te dar tanto trabalho quanto ou até mais que a monogamia tradicional pra manter. Na verdade eu me arrisco dizer que vai dar muito mais trabalho, porque enquanto a monogamia tradicional já tem suas diretrizes pré estabelecidas desde muito tempo (o que talvez facilite para os casais que querem ser monogâmicos não tradicionais se guiarem), amor livre não tem absolutamente nada estabelecido. Tem só a minha vontade de ser minha, minha vontade de compartilhar amorosamente a  minha vida com uma ou mais pessoas e um monte de gente no caminho afim de bagunça ou afim de falar que eu tô viajando e que as coisas não são assim.
O que eu quero dizer com todo esse textão é: respeitem quando alguém diz que é adepto do amor livre. Respeite que tem pessoas que escolheram outras formas de se relacionar que não foram a sua. Se um dia virem alguém falando algo que eu não disse aqui, respeitem essa pessoa também, porque isso aqui é só minha visão, e pensar o amor de forma livre gera várias interpretações. Se você está em uma relação monogâmica tradicional, entenda que eu não tô criticando o seu relacionamento, mas sim essa estrutura pré moldada de como se relacionar a qual você escolheu seguir. E seguindo essa estrutura, por mais que ela possa ser problemática muitas vezes, você já tem um privilégio social de não ser considerada uma pessoa maluca ou traumatizada pela forma que escolheu se relacionar (serve também pra brancos e homens que não entendem que falamos de categorias, e não dos indivíduos em si, enfim, só um adendo).
E se você achou amor livre interessante, intrigante ou curioso, sinta-se livre pra perguntar qualquer coisa sempre que quiser. A porta está e estará sempre aberta, nós podemos conversar por horas e dias, e você pode até ficar por aqui se quiser, porém lembrando que eu posso te pedir pra sair e encostar a porta quando passar -  o que nem de longe significa que eu não vá te chamar pra voltar.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Desabafo

É um tanto complicado explicar que não se está bem quando o motivo não é relacionado diretamente a você - e isso já é um baita dum sintoma do porque não se está bem.
Há cerca de 2 anos me assumi feminista. E nem de longe foi uma das decisões mais fáceis a serem tomadas, pois se assumir feminista dentro de um contexto cristão-católico-machista-heteronormativo é trazer consigo um letreiro luminoso na testa que diz LOCA EXAGERADA pra uma boa parte da população, mesmo que esse letreiro seja tão verdadeiro quanto as fotos promocionais dos lanches do Mc Donald's. Por vezes rola uma sensação de perseguição - "será que estão olhando pras minhas axilas peludas?", "será que estão julgando minha roupa curta mostrando minhas celulites?", "será que meus amigos e amigas estão incomodados com as minhas atitudes?", “será que eu não estou mesmo exagerando?” - seguida, a passos lentos e cambaleantes, de um lindo letreiro das cores do arco-íris que toca Beyoncé dizendo: FODA-SE. Aí neste momento algumas pessoas que estão lendo vão falar "tá vendo como é loca exagerada nem quer ouvir os outros é mesmo uma feminazi gayzista comunista etc etc etc" e gente, veja bem, não é esse o ponto.

(Ponto importante antes de continuar: se a população na qual você se encontra não sofreu opressão histórica e tem privilégios nessa sociedade, foi mal ae, mas você não é minoria só porque tem gente discordando de você. Apenas compreenda sua posição de privilégio e faça algo pra tornar as coisas ao seu redor menos desiguais. Espero ter sido clara, agora vamos continuar:)

Quando já se está inserida neste contexto feminista há um bom tempo, o olhar passa a ficar cada vez mais acurado. Quando mais situações opressivas se vive e se vê, mais fácil fica identificá-las, e mais fácil ainda fica perder a paciência, pois quando se recebe cantadas na rua todo dia, quando se vê pessoas comentando sobre seus ~pelos errados~ todo dia, quando se vê pessoas ditando regra pra sexualidade alheia todo dia, quando se vê pessoas tomando estereótipos como realidade todo dia, quando se vê pessoas não buscando se informar antes de atacar o amiguinho todo dia, o cansaço fica extremo, e o termômetro de empatia explode. Não é apenas uma empatia de "deve ser difícil o que você passa", mas sim uma empatia de "eu já passei/passo/passarei por isso". Mesmo que não seja comigo, se é com a amiguinha ou o amiguinho isso me dá náuseas. Mal estar físico acomete meu corpo se vejo pessoas repassando informação sem ao menos refletirem sobre o que se trata, se vejo pré-conceitos por causa da orientação sexual, da cor da pele, da visão política ou da religião.
Como li uma vez em um texto da maravilhosa Eliane Brum, se sentir mal nesta sociedade é sinal de saúde, e nunca pude concordar mais. E não é por ser opinião dela, mas sim por isso ser algo embasado, uma teoria construída através dos tempos que acompanhou o desenvolvimento dessa sociedade insana e viu o adoecimento permear a vida de muita gente que bota a mão na consciência e pensa “tem coisa errada demais nessa história”. E o meu sinal de saúde é passar mal. É ter dores de cabeça e nos olhos logo após ler que querem “vetar a ideologia de gênero”. É ter o estômago revirado cada vez que alguém me fala “ce fica querendo mudar o mundo, mas as coisas são assim, não tem o que fazer”, é simplesmente explodir em lágrimas quando uma travesti, uma pessoa negra ou uma minoria religiosa são espancadas, estupradas ou mortas apenas por serem quem são.
É "foda-se" porque ao tornar-se feminista, sendo essa uma definição tão negativada pela sociedade, você precisa ter desconstruído muita coisa. Você precisa ter entendido e sentido na pele alguns pré-conceitos apenas por ser categorizada como mulher. Você precisa ter entendido que se achar feia, sem auto estima e dependente não era coisa só da sua cabeça, que não era coisa só da cabeça de muita gente, e que sim era um fato, estatístico inclusive. Você precisa ter entrado a fundo no assunto porque já estava desconfiando da sua sanidade, e ao adentrar no universo, perceber que muita gente sente a mesma coisa e estuda a respeito a mais de um século. Você então passa a entender que a sociedade é desigual por n motivos, e a busca por equidade é vista como impossível porque muita gente tem diferenciados tipos de privilégios, que fazem com que elas tenham mais voz que você, e que isso não é culpa direta da pessoa em questão, mas que passa a ser quando mesmo ouvindo as reclamações, os estudos sobre o assunto e as estatísticas, ela opta por te chamar de exagerada apenas e seguir em frente. Ser feminista também é entender que nem todos irão concordar pois cada ser humano é único em sua construção, porém que optar pela ignorância (a dos saberes e a da agressividade) não é meramente uma questão de opinião, mas é um fato que por si só explica muita coisa (e que fatos e opiniões são uma zona na cabeça das pessoas, como bem pontuado pelo maravilhoso filme da Pixar “Inside Out”). É entender, de uma vez por todas, que o ser humano é bio-psíquico-social, e que isso não é uma filosofia barata, é filosofia e ciência, e se chama psicologia, e é construída dia-a-dia, de braços dados com os direitos humanos. É entender, enfim, que tudo vai te levar a crer na sua insanidade em prol do conforto alheio, mas que mesmo assim você não vai deixar de apontar textos, discursos, situações e comportamentos que pareçam invasivos e excludentes às mulheres, às pessoas negras, à população LGBT, às minorias como um todo.
E pior ainda que o pré-conceito escrachado e abertamente ofensivo, é o velado. É o “você não precisa ser tão feminista assim o tempo todo”. É o “você não tem o direito de querer que todo mundo concorde com a sua ideologia feminista” (como se o feminismo fosse uma entidade acima do bem e do mal... nesta altura do campeonato já cansei de ser didática, vão pesquisar, por favor), é o “tudo bem ser gay, mas não precisa exagerar”, é o “ideologia de gênero só vai destruir a vida de nossas crianças (vão pesquisar [2]), “o fim da família tradicional é o fim dos tempos” (vão pesquisar [3]), “amor livre é só putaria” (vão pesquisar [4]) e dentre outros exemplos que é melhor não listar pra evitar o mal estar.
Eu não tô pedindo pra você concordar comigo, eu tô pedindo pra você pensar.
Eu tô pedindo pra você por a mão na consciência e ser menos individualista.
Eu tô pedindo pra você parar de pensar no próprio umbigo e olhar ao seu redor.
Eu tô pedindo pra você pesquisar, pra você não aceitar pronto tudo o que ouve ou lê (incluindo meu singelo texto).
Eu tô pedindo pra você parar de diminuir a dor do amiguinho em prol da sua.
Eu tô pedindo pra você se colocar no lugar do amiguinho não com a sua vivência, visão e verdade de mundo, mas com a vivência, a visão e a verdade de mundo dele.
Eu tô pedindo pra você entender que sua religião não é única, e não é porque você acredita nela que ela seja mais verdadeira que as outras.
Eu tô pedindo pra você entender que vive em sociedade e ser individualista tá fadado ao fracasso.
E eu só tô pedindo porque eu não tenho como fazer nada de diferente disso, e mesmo se tivesse, não o faria, pois não cabe a mim impor nada a ninguém.

Agora, se mesmo diante de fatos você insiste em chamá-los de opinião, se mesmo sabendo das estatísticas sobre racismo, homofobia, feminicídio, o capeta a quatro e todos os últimos acontecimentos você ainda insiste que eu estou exagerando, eu não posso te pedir nada além de calar a sua boca diante da minha dor, porque eu não sou obrigada a respeitar quem não respeita as mina, as pessoas negras, as pessoas homossexuais, as pessoas trans e todas as pessoas que você insiste em chamar de exageradas e silenciar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Delusion's poem


People with tiny minds
also should have tiny bodies
- not bigger than an ant -
and live on a human's sized world.

That way, their thoughts wouldn't be able to escape,
to be spoken,
to be listened,
or to be seen.

And the world could be able to have
in a tiny quick time,
a tiny little hope
to be a tiny little better.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

"Nada deve parecer impossível de mudar"


Tenho encontrado na pureza das vozes um ritmo para caminhar,
Já que os passos descompassados preferem não opinar nos pensamentos tortuosos.
Porém em tudo que ouço,
me ouço,
silenciando as agonias ao sentir em minhas entranhas os caminhos não vistos na angústia de toda aflição.
Assim todos os sentidos se voltam à música das falas,
das vozes sem melodia,
dos sons atrelados às vidas que não se pertencem,
ou ainda pior,
às vidas que não se pertencem porquê não sabem.

E diante da falta de sentido,
munida de todos sentidos,
nada mais será capaz de calar as inúmeras vozes que repousam comigo os gritos de todos os nossos silêncios,
Que repetidos no desespero diário donde os fracos não tem vez,
Fazem nascer o desejo de ouvir a voz que há em todos os silêncios repletos de desespero.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Primavera.


Enquanto não sinto,
Fujo,
Me resguardo no que fui e no que procuro ser,
Fecho portas e abro janelas pra melhor sentir o cheiro das flores
- mas sem tocá-las, pois tem espinhos.

Enquanto sinto,
Fico,
Abro as portas para dar livre passagem
ao perfume, aos espinhos
e às petalas, porque são macias
- talvez valha o risco tocá-las.

Enquanto fujo,
Sinto,
O que não fui porque não pude ser,
O que não fui porque não quis ser
e me resguardo no que ainda há de meu em mim
- as flores mortas estão só lá fora.

E enquanto fico,
Sinto e não mais fujo.
As cicatrizes pelas flores mortas
tornam-se sabedoria em botão,
E ao sentir suas pétalas,
sorrio pelo que sou.
- floresci.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Perdoe-me o mau humor


Não lido muito bem com meu ócio
Não entendo muito bem meus limites
Não julgo muito bem meus lapsos
Não aceito muito bem meus erros.

O bem que não faço a mim transbordo em antônimo aos outros.
Sendo assim, portanto, perdoe-me o mau humor.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Esvaziou-se


Da mesma forma que fizera com as folhas do outono e com o frio do inverno, decidiu por livrar-se e aquecer-se.
Carregava suicídios de outros carnavais, embora não demonstrasse os corpos na bagagem. Se pensasse em quantos suicídios alguém é capaz de carregar, talvez não soubesse como proceder diante do próximo.
Pensou pouco e não hesitou em conformar-se que soaria de forma tão igual que doeria por ser tão diferente.
É que nunca fora um ato simples, tampouco seria agora, munido de novas memórias somadas às antigas lembranças...
Incapaz de imaginar, apenas começou a sentir, e a dor era tão concreta… Era praticamente palpável naquele peito arfante pressionado pelo travesseiro velho, ambos incansáveis à mesma melodia fúnebre e linda, única e repetitiva.
Tão bela e angustiante era a morte, quanto mais a de si.
Enquanto tudo prosseguia, a calmaria arrastava-se aos passos lentos da coragem de um suicídio. Jamais  acreditara realmente que esvaziar-se doeria mais que a partida.
Nada a ser feito agora. O vazio se alimenta daquilo que lhe conforta e sendo assim, encontrara em si seu repouso.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Dádiva dos tolos



Havia um coração
que era maior que o mundo,
e que de tanto sentir
o muito lhe parecia escasso.
Ele orava para que pertencesse
à dádiva da sanidade,
que na sabedoria dos grandes
era fazer-se razão
para que se encontrasse a liberdade.
Tolos esses grandes,
pois só se é são
enlouquecendo,
liberdade é pensar
sabedoria
como o pulsar da razão
entre os sentimentos.

(Quão racional pode ser um coração?)

sábado, 31 de dezembro de 2011

Um brinde ao otimismo e à mudança


Acho interessante esse negócio de “Virada do Ano”. Sempre as mesmas festas, os mesmo rituais, os mesmos programas de televisão, (quase) sempre as mesmas pessoas.
E depois da tal “virada” durmo tarde como todos os dias do ano que passou, com a barriga cheia como após qualquer boa festa que freqüentei e tendo o dia seguinte regado à preguiça e comida requentada.
Se o dia seguinte é o ano seguinte não alterou em nada, foram os mesmos hábitos e a mesma rotina. Mais do mesmo.
Mas como todo ritual “mundial” tem um propósito e este costuma ser ridículo (pra não dizer revoltante), uso os olhos do otimismo pra extrair o que há de bom.
Na realidade, a tal “virada do ano” é mais uma jogada de marketing pra fazer burguês feliz, ou desculpa pra fazer muita festa e muita merda. Ou talvez as duas coisas, dependendo de quem comemora.
Só que a simbologia por trás disso é a paz, a alegria, a união, a mudança, a esperança, um novo ano chegando, uma nova vida pela frente. E isso é lindo, sem sombra de dúvida.
Só que, venhamos e convenhamos, tudo isso só é possível com a própria mudança. Ideias velhas num caderno novo continuam sendo velhas. E quando se sabe a vida toda (ou pelo menos há algum tempo) que vermelho não é preto, não é em uma noite que se convencerá do contrário. Cada um tem um tempo necessário pra ser convencer ou ser convencido a respeito de algo, e não discordo, pois é fato. Mas acredito que sempre será um processo mais longo que um minuto ou um voto de “feliz ano novo”. O desejo de mudança deve estar rondando há algum tempo para que seja colocado em prática de forma tão brusca.
E dessa forma, acabo por ver a “Virada do Ano” como o melhor impulso de mudança possível. Se já havia vontade, a troca de calendário (que, queira ou não, muda a rotina, há não ser que você não trabalhe nem estude e só mantenha contato com pessoas que fazem o mesmo) vai dar forças para que isso aconteça. Se não havia vontade, vai ser mais um festival de hipocrisia seguido de um ano “mais do mesmo”, que é bem comum em alguns casos de gente “super bem resolvida” (ou talvez acomodada…).
Portanto, a “Virada do Ano” é bem mais que interessante. Acho válido fazer um balanço do que quero e do que não quero mais. Os hábitos que quero conservar e os que quero destruir. Pensar nas metas possíveis, nas impossíveis e nas ridículas. Querer melhorar a mim antes de melhorar o mundo – o que também não impede de tentar fazer os dois ao mesmo tempo.
E uma das coisas mais importantes, não esquecer que “pessoas são seres humanos”, como diria uma amiga minha. Ok, explicando: todos cometerão erros. Vários, muitos deles. Simples, complicados ou terríveis. Comigo, conosco, com eles. A questão é evitá-los, e se isso não for possível, consertá-los. Caso isso também não seja possível, adaptar-se às mudanças impostas por eles. Não é fácil, tampouco impossível.
Então, pra todos aqueles que lerem esse texto, desejo apenas vontade de mudança. Seja no comprimento dos cabelos, seja nos valores, o importante é mudar o que não te agrada mais ou o que já te cansou a beleza.
Nunca vi mais do mesmo fazer bem a ninguém, e se conhecer algum caso, pode ter certeza que avisarei.
Que em 2012 tudo seja melhor. Principalmente você.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ainda não


Havia serenidade ao observar a lentidão dos passos. Cada um deles era analisado como uma convincente pedra falsa, com um carinho que vai além do peso do coração.
Conforme os passos perdiam-se de vista, a bússola parecia perder seu norte. Mas que tolice pensar assim quando se sabe que a distância percorrida era pelo sabor de novos ares, jamais pelo amargo da dúvida.
E a paciência já não era uma virtude àqueles que apenas esperam, mas sim uma condição. E sua razão seria desconhecida enquanto os passos não voltassem à vista, até mesmo por aqueles que já sentiram a dor de não ter-se.
Ninguém jamais seria capaz de explicar a lentidão daqueles passos distantes.
E nem precisaria.
Daquilo que eleva a alma não se necessita entendimento, e sim que se sinta.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Por um viés de realidade

Procurava por um repouso. O cansaço das longas jornadas não se dissiparia em uma só noite.
O que havia de errado? It’s only destiny, my little child.
Enquanto a procura continuava, cada vez mais incessante, as cortinas fechavam-se em ríspida velocidade. Talvez fosse apenas o medo do viajante misterioso, tão sequelado pela falta de abrigo e pelos velhos hábitos.
Mas estes hábitos eram maiores que o medo, então abriu as cortinas. É o mesmo cenário de outrora, e descubro que elas não fizeram a mínima diferença. Olhar através era o mesmo que retirá-las, pois o cenário era tão interessante que nada era capaz de desviar a atenção.
Observando com um pouco mais de zelo, acordei. Havia um viés de sonho no embolorado daquela realidade, e é certo que as cortinas continuariam ali. Tão úteis e tão desnecessárias, meu Deus. E entre tanta observação, foquei no viajante repousando. Um misto de medo e desejo inundava seus ávidos olhos.
O que havia de errado? There’s no fucking fate, my little child.
Continuei a observar. O mesmo cenário de sempre me observava de volta. A insistência parecia não fazer sentido, mas eu não me cansaria tão cedo. Ela era mútua.
De fato eu já havia acordado, mas sabíamos que não era de nenhum sonho. Dentro daquele cenário, é pelo viés dos olhares que o real salta aos olhos. Enquanto o viajante gritava, eu respondia. Sempre pelos olhos. E nesse diálogo incessante através do silêncio, a realidade me repousou.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Viver é melhor que sonhar


As músicas continuam tristes, mas não como um dia foram. São mais dramáticas e menos realistas. Doem menos, confortam mais.
Seria frieza? Talvez, se frieza for entendida por jatos d’água em meio a um incêndio sufocante.
O nó no estômago e as sensações angustiantes persistem, mas não da mesma forma ou freqüência de algum tempo atrás. São breves e suportáveis, esperadas e edificantes.
Seria conformismo? Talvez, mas alguma espécie de conformismo saudável e maduro, ancorado numa espera dinâmica e sem pressa, tranqüila, pacífica.
Os sentimentos continuam em uma montanha russa, mas bem menor e bem menos veloz, praticamente prestes a parar. Eles se parecem com desespero, lembram angústia e exalam irracionalidade. Mas trazem certeza na fé, e fé na certeza.
 Seria desistência? Talvez, mas alguma espécie de desistência da imaturidade, desistência do desamparo, desistência da angústia.
A cronologia nada diz a respeito do tempo que realmente vivemos. São apenas números, impostos por alguém que era bom em cálculos em tempos passados.
O verdadeiro tempo traz memórias, idéias e reflexões que são vistas como válidas ou não em referência as horas do dia ou aos números no calendário, quando na realidade deveriam ser interligadas com a intensidade e a veracidade com a qual são sentidas, ganham vida e são vida.
Não são relógios ou calendários que determinarão o sentido de uma espera, mas sim as experiências e os sentidos atribuídos à ela. Existem diversas frases feitas a respeito da forma com que se deve encarar a vida, como se manuais iguais correspondessem a seres humanos diferentes, como se os sentidos de uma vida pudessem ser facilmente atribuídos à outra, como se cada um de nós não fosse único e complexo o suficiente para se explicar apenas a si.
No calendário, a cada página virada o meu tempo se esvai depressa. Por mais que a lentidão das horas consuma o pensamento, ao fim de todas elas o sentimento é de sabedoria, numa espécie de certeza absurda, inexplicável e real de que tudo é capaz de se tornar cada vez mais sincero e equilibrado, acronológico e maduro. Que há sempre chances para quem deposita suas esperanças em alguma fé, e que na espera eu sou capaz de reconhecer minha sabedoria e abrigar meu tempo.
Eu não conto mais meus dias; eu vivo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Fantasmas Permanecem

Texto escrito por meu amigo Gustavo de Campos, que tem visto de perto os acontecimentos na USP. Apreciem!


Socialismo, capitalismo. Esquerda, direita. Desculpem-me, prefiro não escolher lados. Não entendo isso como omissão ou justificativa para uma suposta passividade. Prefiro pensar que estou “do lado de cima” simplesmente e por isso consigo ver com menos obstáculos, mesmo correndo o risco de ser surpreendido por alguma passageira nuvem. Arrisco dizer que são esses obstáculos que nos impedem de ver o quão podres estão as entranhas legislativas, executivas e administrativas de nosso país ou o quanto necessitamos de uma educação renovada e não atada ao que nos mantém em estado permanente de torpor.
Tenho visto e acompanhado de perto os acontecimentos na Universidade de São Paulo, uma vez que estudo na mesma, e parece-me a instauração (consolidação ou exposição talvez melhor me expresse) de uma ditadura sob a sociedade tão facilmente guiada pelas luzes da mídia. Ditadura sim. Ou você acha que ditaduras se baseiam apenas em torturas, pessoas jogadas no meio do oceano e governos militares à moda antiga? Toda ditadura que se preze sabe controlar as massas, mantê-las sem informação alguma ou afogadas em falácias. Pensamento livre é um perigo maior do que qualquer guerra. O manual da boa ditadura também prevê, como resultado da privilegiação de uma classe e a tentativa de eterno controle do poder, pequenos focos de resistência vindos de alguns badernistas que, por coincidência, estudam e pensam a cidade e a sociedade. Mas o que podem fazer esses arruaceiros quando toda a anestesiada sociedade também os julga assim depois de já estar espumando pelas ventas mentiras tão bem contadas? Vão morrer na praia, certeza. Tenho que dar o braço a torcer: não seria tão inteligente a ponto de bolar um plano de tamanha eficácia; que fantásticas máquinas essas ditaduras.
Fatos como a não pacífica operação dos mais de 400 policiais na reitoria da Cidade Universitária, a denunciada manipulação da depredação ocorrida dentro da mesma, a omissão do real número de protestantes na passeata realizada no centro da capital paulista ou a presença da PM, na Cidade Universitária ou não, que nunca foi o verdadeiro problema, mas este o é sua subordinação a um governo tamanhamente corrupto podem ser mais bem esmiuçados ou compreendidos em blogs e textos que circulam pela internet em geral e, principalmente, em suas redes sociais. É só preciso correr atrás dos mesmos e, ainda que neles, ativar o filtro e caprichar no discernimento. O que pretendo realmente abordar aqui é a questão da equiparação de certos protestantes com a ditadura militar brasileira e a massiva opinião pública que, após chama-los (chamar-nos pode me apetecer mais) de vagabundos maconheiros, acusa-os de um delírio revolucionário. Não, não perseguimos o coelho até a toca. Ou talvez até tenhamos perseguido aquela bola de pelos brancos, mas não entramos. Não acho que existam mais aqueles fatos escancarados da época da ditadura em que pessoas eram colocadas na cadeia apenas por suas ideias e quem perguntasse ao governo o porquê de tal prisão seria respondido, senão com sua própria prisão, com um “porque ele pensa diferente de nosso regime” ou mesmo órgãos exclusivamente voltados ao desaparecimento de indivíduos, tampouco concentrados em seu encontro com os peixes do oceano. O que ocorre hoje é muito mais sútil, camuflado; tudo envolto em uma aura democrática e benevolente.
Uma vez com a mídia em seus bolsos, e consequentemente a grande maioria da população em coma profundo, o governo (ou governo seria um eufemismo para controle total?) passa a atacar os possíveis focos de proliferação do mosquito da consciência crítica: as universidades que, ainda, não se encontram sob seu circulo de amizades. Contudo, ao contrário do mosquito da dengue, não morreremos com inseticida ou seremos evitados com areia no pratinho e nossa proliferação não se dá em água parada, mas sim na agitação da mesma pelas injustiças podres que nos atiça o olfato. De forma alguma quero colocar os protesto e atitudes até então tomadas como algo de pura coerência em sua totalidade, mas, com o passar do tempo e fortalecimento dos objetivos e ideais, as coisas se tornaram (e continuam se tornando) cada vez mais legítimas, justas e verdadeiras. Não estamos inebriados ao som do flautista e sabemos que a “Revolução de 64”, pela qual a PM mantém uma estrela em sua manta, foi-se a muito e o contexto é diferente, é outro. O que não se faz diferente é a corruptividade do ser humano frente à possibilidade de poder e enriquecimento. Também não nos é diferente a luta de alguns que ainda guardam esperanças no espírito humano e acreditam que essa corruptividade é passível de cura ou, ao menos, alento.
Volto a repetir: que fantásticas máquinas essas ditaduras; procuram cortar as ideias diretamente na formação de quem as futuramente terão. Ato este que esclarece bem os seus objetivos de manter vigente um poder privilegiador de uma elite monetária e aristocrática. E, por favor, não venham rebater isso dizendo que é uma visão esquerdista; é apenas a constatação que muitos não fazem por incapacidade não culpável, alguns poucos por incapacidade culpável e outros por conformismo. Então que essas linhas escritas no dia 15 de novembro, comemoração do ambíguo dia de proclamação da república em nosso país, misto de ideal libertário e nova forma de controle da elite monetária, assim como outros que por aí circulam, seja um inicio para não uma aceitação sem resistência do que aqui foi lido, mas sim um estímulo para a procura de informação em meios alternativos que não apenas o conveniente e popular, bem como sua consequente crítica e assimilação. Que se inflame o uso das ideias acima da força, o uso do livre pensamento a frente das cordas da marionete, julgamento de importância e legitimidade de protestos e reivindicações.
Existem protestos e protestos, é claro. Condeno o uso de qualquer tipo de violência, mesmo nas manifestações justas; esse não é o caminho, um soco jamais imprimira uma marca tão forte quanto um texto ou discurso bem fundamentado. Entretanto, os ideais perseguidos pelos protestantes da Universidade de São Paulo e de todas que a nós se juntaram em defesa da digníssima liberdade de pensamento, base de toda sociedade que coloca o ser humano à frente da sublevação de qualquer autoritarismo, se fazem não só justos, mas necessários. Não são fruto de uma juventude inflamada de hormônios pseudo-revolucionários como atesta a horda quase inculpável de credores informativos do estado. Já dizia Eduardo Galeano, a quem hoje ouso chamar de mestre: desde que entramos na escola ou na igreja, a educação nos esquarteja: nos ensina a divorciar a alma do corpo e a razão do coração. Nossa alma e corpo aqui são um único ser, um expressão do outro, movido pelo seu par e desejoso de tatear os ares de uma educação renovada e digna de libertar-nos das amarras que tão passivamente aceitamos vindas do altar luminoso, comunicação com a divindade autoritária-democrática. Razão e emoção também aqui não são Caim e Abel; se é que essa distinção, teórica que seja, pode existir, acredito que a razão pondera nossos atos e coloca nossos argumentos nos lugares que almejamos, mas o coração conecta essas palavras jogadas ao ar com o coração de outros que estejam abertos a ouvir. Se é que essa divisão, uma vez que não pode ser realizada na torrente das ações e resultados, pode ser ao menos teorizada e hereticamente insultando Galeano, afirmo: a razão escreveu este texto, mas foi o coração que pediu.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Angústia

Está calor - mas apenas lá fora, já que o suor é frio.
No estômago deram um nó e na boca só se têm sede
(não é de água, o estômago não permitiria).
Peço por segundos de paz à espera da resposta,
mas - por Deus! - eu sei que só a resposta trará paz.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Primavera?


Eu quis cuidar do seu jardim, mas as rosas estão murchando antes de florescer.
A terra é boa, mas as ervas daninhas estão sufocando os botões e não posso arrancá-las pois estão na raiz.
Tentarão as rosas crescerem sufocadas ou morrerão todas?
São flores fortes, mas acho que precisam de cuidados maiores.
Ainda quero cuidar do seu jardim...



domingo, 6 de novembro de 2011

Solidão #2

O vazio se consome novamente,
agora num finito visível,
mas será realmente oco?
Não pode ser; não é
Mas quem disse que era certeza?

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Todo carnaval tem seu fim

A ressaca moral das noites mal dormidas regadas pelo melodrama das músicas descompassadas junto aos textos de descarga emocional fervente que quase doíam como ferida aberta não conseguiram manter as velhas concepções estagnadas pelo usual, já que o acaso demostrou ser crença fiel na falta de fé, uma vez que eu praticamente vi a tristeza cruzar meus olhos enfurecida pelo adeus sem saudade e por ter que deixar a felicidade entrar e apoderar-se do posto que um dia foi seu. Então a calmaria de uma quarta feira de cinzas envolveu-me através de chamas receosas em serem mortais, que ardem com o fogo invísivel e inexplicável que um dia o poeta disse que seríamos capazes de sentir. E por acreditar além da crença do poeta, porque não desejar que a calmaria beire o infinito?

terça-feira, 18 de outubro de 2011

The bitterness inside is growing like the new born


Antes de começar este post, gostaria de contar os motivos que me levaram a escrevê-lo: meu último post sobre padrões de beleza (E já nem sei quem mais é o culpado nessa história), umas leituras enriquecedoras no Escreva Lola Escreva (me levando a modificar meu status do último texto de "culpada" à "tentativa de não sê-lo" mandando um foda-se inacreditável ao excesso de pancinha sem desistir de comer minhas porcarias ou de manter minha saúde indo à academia), um episódio de Supernatural (que tratou muito bem de questões de julgamento e culpa) e o meu gosto por interpretar músicas que, aparentemente, não fazem o menor sentido. Aí vai meu devaneio:

"How much are you worth?
You can't come down to earth.
You're swelling up,
You're unstoppable."



Esse trecho é da música New Born, da banda britânica Muse (da qual eu sou fã, diga-se de passagem), e é uma das minhas músicas preferidas. A letra na íntegra é deveras confusa, mas pequenos trechos me permitem uma interpretação relevante.
Traduzindo mal e porcamente, o trecho diz "Quanto você vale? Você não pode vir à Terra. Você está inchando, você está desgovernado."
É uma espécie de aviso ao ser humano, um aviso um tanto quanto deprimente, na realidade.

Uma vez vivendo no planeta Terra com os ditos racionais seres humanos, o julgamento é pedágio para relações sociais. Cada um tem um valor diante de cada ser humano, valor este que muitas vezes independe de quem você realmente é. Explicando: para uns, o que conta é caráter, e para outros, aparência. Só que a princípio, o primeiro pedágio para todos é a aparência, infelizmente. O que diferenciará uns dos outros é que alguns irão elaborar suas concepções sobre o externo alheio e se limitar à isto para definir seu caráter, enquanto outros irão em busca do caráter partindo da primeira vista externa - seja esta agradável ou não -, tornando a aparência final mais bela ou mais horrível que a inicial. Para mim, avaliar alguém apenas pelo externo é sinal de caráter podre, logo, aparência podre, mas provavelmente para quem faz isso, minha forma de pensar é que é podre, logo, minha aparência também o é.

Partindo deste princípio, o belo (uso o termo como expressão para beleza total, "corpo e alma") é claramente relativo, e nossos valores (no sentido de valer algo para alguém, não no de concepções ou ideais) têm uma variedade infinita, já que eles dependem de quem está nos julgando.
Portanto, como a música se chama New Born (recém nascido), sinto que o trecho é um aviso àquele serzinho que está chegando agora ao planeta Terra. Um aviso cruel, na realidade, já que ao passo que ele pergunta "quanto você vale?" não espera nem uma resposta para sentenciar que o fulaninho não deve vir, talvez porquê ele vá demorar a valer algo, já que enquanto ainda não julga, não produz ideias, não almeja e consome muito pouco por si mesmo, não move a máquina capitalista, que é o foco desse mundo, ou talvez porquê ele vá sofrer demais quando valer alguma coisa, uma vez que o "você está inchando, você está desgovernado" pode ser entendido por um "você está crescendo, vai ter que se adaptar à si mesmo mas principalmente aos outros, vai se desesperar e querer voltar a ser um recém nascido".
Ou seja, Matthew Bellamy nos agraciou com um sucinto, belo e melodioso "você vai se foder legal por aqui, amigo."

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

E já nem sei quem mais é culpado nessa história


Engordei. Já sabia, mas hoje quis constatar na balança.

A primeira reação foi uma cara de "fodeu" reprimida, pois engordei mais do que imaginava...

E toda vez que isso acontece (o que é algo relativamente frequente) eu fico aqui me perguntando quem foi o puto infeliz influente na sociedade que num momento da história decidiu que barriguinha era coisa feia e que a ausência dela é que era coisa bonita. Rapaz, cê fodeu minha vida e a de muita gente que curte comer, sabia?

E logo após esse pensamento, já rebate outro: "mas barriga sobrando é coisa feia mesmo", e a partir daí, justifico as horas de academia e o sofrimento de não comer as coisas que tanto amo.
Só que pera lá um pouquinho: por causa de um puto que em um determinado momento da história disse que barriguinha era feia, eu e mais umas 2 gerações anteriores temos intrínseco em nossos seres a ideia de que magreza é beleza e saúde, e gordurinhas feiura e doença.
Só que obviamente não é bem assim, já que nem todo magrelo é saudável e nem todo gordinho é doente. Acho que só achamos que o magro é mais bonito porquê sempre nos foi colocado assim.

E nessa daí eu, que nunca fui de ligar muito para aparências, me sinto afetada pelas concepções que me impuseram. E (in)felizmente, acho que não é só comigo que isso acontece.
Então diante disso, fico no impasse de perder os quilinhos em excesso ou mudar as concepções. Os dois são imensamente difíceis, mas mudar as concepções é quase impossível diante do medo de se sentir taxada de gorda e feia por qualquer pessoa ou instituição, gerando sentimentos de incapacidade e insegurança, coisas que não deveriam ter nada a ver com aparência externa. E aqui eu chego num ponto que não consigo explicar, pois a opinião de um estranho é irrelevante, só que por mais que ninguém veja a barriguinha sobrando, eu não consigo me sentir bem sozinha diante do espelho. Eu não consigo mudar minhas - minhas? - concepções.

É um auto-julgamento carregado pelo peso das futilidades que eu sempre enojei, aliás, carregado da futilidade de estar próxima de um padrão de beleza que sei lá eu porquê raios é assim. A minha sorte é ter cabeça o suficiente para não fazer parte de um grupo de anoréxicas e/ou bulímicas, o que hoje em dia é uma coisa comum diante das exigências sociais - ridículas, diga-se de passagem - de beleza.
Enfim sociedade, constatei que você está podre há muito tempo, só que ao te jogar toda a culpa, vi que não consigo negar uma de suas mais ridículas imposições.
Devo eu achar que a culpa por parte desta podridão também é minha? Temo que sim.









P.S.: Acho que as pessoas gordinhas podem ser tão bonitas quanto as magras, pois o que entendo por beleza não é uma questão de peso. Eu posso continuar tendo a mesma beleza com muitos quilos a mais, a diferença é que não me sentirei confortável assim.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Sobre gente que faz humanas mas não é humana, não parece gente e deveria sumir do mapa (ou pelo menos da faculdade)

É engraçado ver como valores distorcidos se conservam.
Nas escolas - ou pelo menos nas que eu frequentei -, as notas sempre foram muito valorizadas, pois quanto maior a nota, melhor o aluno. E também eram o determinante para que se passasse de ano ou apenas não levasse xingo dos pais, para que finalmente se conseguisse concluir os "estudos", tão desejados pelos pais, professores e mercado de trabalho, e tão odiados pelos alunos.


O problema é que as notas, em grande parte dos casos, não significam nada. Dá-lhe decoreba pra passar naquela matéria desgraçada que você não entende patavinas. E depois da prova, não lembrar nem qual era o assunto. A vida escolar inteira isso acontecia, seja em pequenas ou grandes escalas.
Sendo assim, concluiu-se a escola, cumpriram-se as médias, decorou-se o que não se aprendia e aprendeu-se o que se gostava e/ou entendia. Agora, é hora de correr atrás do que se quer para o futuro.


As exatas sempre foram um problema imenso para mim, e do grande conteúdo que vi, pouco aprendi e muito decorei e esqueci. Gostaria que não tivesse sido assim, mas talvez por falta de esforço ou de capacidade cognitiva, decorava e colava apenas pra passar. Mas assim que me livrei das exatas, corri para algo que realmente me interessasse. E acredito que é assim que acontece com a maioria das pessoas, sempre em busca do que se têm realmente vontade de fazer.
E diante de um estudo para algo que se quer fazer, esqueça as colas ou os decorebas. O que é aprendido agora é fundamental para o futuro pessoal e principalmente profissional. Se não aprendi direito, eu que corra atrás do prejuízo, porquê não posso correr o risco de afetar outras vidas por causa da minha displicência.
A faculdade não é perfeita, existem matérias chatas e maus profissionais, conteúdos que deveriam ser menos explorados e conteúdos que deveriam ser melhor explorados, mas nem assim justifica-se colar ou decorar um conteúdo apenas pra passar. Não foi capaz ou não pode aprender? Arque com as consequências e estude melhor depois. Acredite, prosseguir sem capacidade só te torna mais burro.


Mas o que mais me enche de indignação é ver que a maioria das pessoas não têm essa concepção e realmente acha que o importante é só passar.
Tudo bem se você não gosta da matéria, tudo bem se você não tem tempo para estudar, tudo bem se você acha os professores péssimos, tudo bem se sentir assim, de verdade, eu sei que o sistema é mesmo um lixo, que ninguém dá o real valor à nada e que as coisas não deveriam ser assim... Mas isso não justifica se infiltrar no sistema. Então não transfira a sua culpa. Nem a sua falta de responsabilidade.


Pois o único responsável pelo seu futuro, seu empenho e por não tentar algo melhor, é você.
E num futuro bem próximo, o único responsável por ter arruinado a vida de alguém infelizmente também será você.